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Conselhos para um jovem médico - Capítulo 1



A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO PARA O MÉDICO.


"A prática da medicina é uma arte não um comércio; uma

vocação não um negócio; uma vocação através da qual teu

coração será exercitado assim como tua cabeça.

Freqüentemente a melhor parte do teu trabalho nada terá a

ver com (a prescrição) de poções e fórmulas, mas com o

exercício de uma influência do forte sobre o fraco, do justo

sobre o mau, do sábio sobre o tolo”. (William Osler.

Aequanimitas; "The master word in medicine").


“As demandas irregulares e incessantes sofridas pelo

médico ocupado tornam difícil reter (uma abordagem

sistemática). Os homens que são sistemáticos, alocando

determinados períodos do dia a tarefas específicas,

conseguem muito, inclusive ter algum lazer”(William

Osler.Aequanimidas; “Teacher and student”).


Muitos lhe perguntam: “E ai, o que você vai fazer da vida?”

Imagino que você já saiba ou pelo menos tenha pensado em ser médico. Talvez você não tenha com

quem conversar sobre isso – nem todos têm parentes ou amigos médicos.

Você deve estar se perguntando, então, como é na realidade do dia a dia esta carreira que aparece tanto

nos seriados de TV e nos filmes.


Pretendo conversar um pouco com você sobre esta profissão e, como não poderia deixar de ser, de lhe

dar também alguns pontos de vista pessoais sobre ela. Como médico que exerce ativamente e como

professor, no contato diário com pacientes e alunos, aprendo o tempo todo, e quero muito compartilhar

com você, nestas cartas, algumas destas vivências.


Antes de começar, todavia, preciso dividir com você um dos principais lemas do médico que é a

importância do estudo.


O estudo é fundamental para o médico em toda e qualquer fase de sua formação. Estudamos para

aprender nossa profissão e para praticá-la. Alguns ainda pesquisarão com pacientes e/ou em laboratório

para aumentar os conhecimentos que serão então estudados e aprendidos por outros médicos. Não há,

portanto, como se evadir desta realidade da importância fundamental do estudo para nossa profissão.


Assumamos que você concorde comigo em tese, mas tenha dificuldades para estudar ou que você

queira melhorar ainda mais a sua capacidade de estudo. Este livro lhe será útil, pois lhe dará dicas para

aumentar a sua eficiência no estudo das diversas matérias que compõem o currículo médico e um

método para um estudo independente perene. Discutiremos também várias outras facetas da vida

médica que estão intimamente relacionadas ao estudo e prática de nossa profissão. O estudo dentro da

área médica deve geralmente visar ser aplicado de forma prática para benefício de pacientes. Desta

forma o exercício da medicina, o seu estudo e a pesquisa médica se imbricam intimamente.


De onde vêm as dicas expostas neste livro? De minha própria experiência pessoal, após ter tentado

várias delas e de tê-las selecionado pela sua utilidade e de vários livros que consultei sobre o assunto

para elaborar este que você está lendo.

Antes de começar a estudar (e inclusive ler este livro) alguns conceitos práticos e, eu diria filosóficos,

básicos aplicados, a meu ver, ao estudo da medicina:


1) O estudo na medicina é uma atitude de vida, um hábito a ser cultivado e estimulado, que deve

preferivelmente ocorrer de forma constante e sistemática ao longo de toda a vida do médico.

2) Existem duas formas básicas de estudo: 1) o estudo diário ou em dias e/ou períodos específicos

da semana que versa sobre temas gerais e 2) o estudo voltado para resolver perguntas ou

necessidades imediatas e específicas como, por exemplo, responder a dúvidas em relação a um

caso clínico ou mesmo se preparar para uma prova. O primeiro tipo alarga os horizontes

teóricos e de compreensão dos fatos científicos da área de atuação do médico ou de estudo do

aluno. Este é o típico estudo que ocorre quando lemos um capítulo de um livro ou um artigo de

revisão. Já o segundo tipo de estudo é de cunho mais prático e aplicado à realidade que se está

enfrentando no momento como, por exemplo, resolver necessidades ou problemas específicos

que surgem durante a prática clínica diária como, por exemplo, qual é o melhor tipo de

tratamento para um dado paciente. Neste tipo de estudo procuramos geralmente a resposta

através de uma pesquisa de artigos específicos na Internet, em um livro mais resumido como

um manual ou em um sub-item de um capítulo de um livro de referência. Não se consegue

achar a informação adequada para resolver um problema prático sem um conhecimento teórico

prévio sólido, daí a interdependência entre os dois tipos de estudo. Devemos ter, portanto, uma

estratégia definida para cada um destes dois tipos de estudo que são igualmente necessários.

Trataremos de como pesquisar dúvidas específicas (medicina baseada em evidências) e estudar

em livros nos capítulos seguintes deste livro.

3) Estudo requer tempo. Existem estratégias para otimizar o uso do tempo para que possamos

dedicar mais tempo ao estudo e para termos também mais tempo para cuidar de nós mesmos.

Devemos criar “unidades” de tempo, por exemplo, blocos de 20 a 30 minutos para estudo

ininterrupto. Mais do que 90 minutos seguidos pode não ser produtivo por induzir cansaço. Se

mais estudo for necessário, devemos entremear blocos de estudo ininterruptos com outras

atividades como alimentação, esporte, etc. Devemos também sempre assegurar, antes de iniciar

a estudar, que temos à disposição todo o material necessário, boa iluminação, silêncio (se bem

que muitas vezes podemos estudar em ambientes com certo barulho desde que consigamos nos

focar no material que está sendo estudado), conforto (mesa ou poltrona para leitura) e que

estejamos devidamente alimentados.

4) Motivação é fundamental. Ela pode ocorrer preferivelmente por interesse em aprender um dado

assunto ou por algum tipo de pressão do tipo prova, preparação de um seminário, etc. O aluno

deve perceber que toda a medicina está imbricada e que um conhecimento sólido de assuntos

muitas vezes aparentemente não correlatos ao seu foco maior de interesse poderão

complementar seu entendimento no assunto que mais lhe interessa. Por exemplo, o estudo da

tuberculose renal enquanto estiver estudando clínica médica poderá lhe trazer conhecimentos

úteis para o tratamento da tuberculose vertebral no futuro se ele optar por seguir a ortopedia.

Desta forma, estudar de forma séria e compenetrada todas as matérias do curso médico é uma

atitude sábia que deve se contrapor à tendência a uma “especialização” precoce já (e

indevidamente) nos bancos da faculdade.

5) Quanto à pesquisa em medicina, reputo esta uma das atividades extracurriculares mais

proveitosas para o aprimoramento do estudante e, para os já formados, a base dos programas de

pós-graduação. Mesmo que o aluno ou o jovem médico opte por não se converter em um

pesquisador, uma experiência, ainda que pequena, nesta área será extremamente proveitosa.

Acho que dificilmente iremos ler um artigo científico da mesma forma após participarmos de

uma pesquisa que resulte em uma publicação. Passar pelas dificuldades de coletar e analisar os

dados, escrever os resultados para redigir um artigo para publicação nos dá uma perspectiva

crítica que será essencial para ler e interpretar qualquer artigo científico de outros autores no

futuro. Além desta perspectiva crítica, o caráter metódico da pesquisa e o necessário e

incessante questionamento inerente ao ato de pesquisar são comuns ao pesquisador e ao médico.

Portanto, a pesquisa tem a capacidade de lapidar o caráter do médico em formação, tornando-o

um estudioso perene e direcionando-lhe sempre para a resolução de problemas de forma

sistemática o que o converte em um melhor profissional também na área clínica. Desta forma,

encorajo fortemente a que alunos participem de projetos de iniciação científica durante a

graduação e que jovens médicos se envolvam em um programa de pós-graduação precocemente

após o término da faculdade.

6) A assistência a pacientes pode parecer apenas uma aplicação de conceitos médicos já

aprendidos na prática. É muito mais do que isso. É a própria razão de ser de nossa profissão e,

mesmo que não exercida por nós, como no caso de um médico que optou por pesquisa em

laboratório, deve ser a meta da aplicação dos resultados de nossos estudos e pesquisas. A

assistência a pacientes ainda nos dá um incomensurável material para pesquisa médica através

dos questionamentos que surgem no decorrer do cuidado dos doentes. Porque este doente

respondeu ao tratamento de maneira tão diferente? Porque há tantos casos desta doença neste

bairro da cidade? Perguntas como essa se resolvidas de maneira científica podem nos dar dicas

para a resolução de grandes problemas da medicina e para descobrir novos mecanismos de

doenças, novos tratamentos, etc. O consultório pode, de certa forma, também ser visto como um

laboratório onde o cientista (o clínico) se defronta com o seu material de pesquisa (a doença) e

o estuda através do método da observação e intervenção terapêutica.

7) O médico clínico começa mais como cientista e termina sempre como humanista, a meu ver. O

afeto pelos seus pacientes e a enorme gama de interesses e idéias trazidos para o médico através

das inúmeras interações com diferentes pacientes ao longo de sua vida alargam seu universo e

lhe despertam diferentes interesses até então latentes. Gosto pela leitura, teatro, concertos,

filmes, conselhos acerca de assuntos econômicos, legais, um melhor entendimento de diferentes

filosofias e religiões são algumas das coisas que me foram legadas por diversos pacientes. Eu

costumo dizer que a doença deve ser apenas um pretexto para que se estabeleça a relação

médico-paciente, este riquíssimo manancial de aprendizado contínuo e mútuo. Para que se

estabeleça um relacionamento que leve a este aprendizado há a necessidade de saber ouvir que,

por sua vez, está condicionada ao interesse do médico pela pessoa do paciente, além do

interesse científico pelo seu órgão doente. Ninguém melhor do que o filósofo existencialista

alemão, Martin Buber, discorreu sobre estes dois tipos de relacionamento entre o médico e a

pessoa do doente e entre o médico e o órgão doente do paciente que ele chamava de “Eu-Tu” e

“Eu-isso”, respectivamente. Falaremos deste filósofo em um capítulo do livro especialmente

dedicado à relação médico paciente.

8) O sucesso requer vários tipos de habilidades e conhecimentos. Inútil imaginar que apenas o

conhecimento da medicina seria suficiente. Basta analisar criticamente o destino de colegas de

formatura 10 anos depois de sua saída da faculdade para perceber alguns padrões que levam ao

sucesso e distingui-los de outros que não são tão eficazes. Talvez, o primeiro passo seria tentar

definir sucesso profissional. Eu vou esboçar uma tentativa de definição: sucesso profissional é a

realização do potencial pessoal e científico do médico que lhe traga satisfação de suas metas nas

esferas profissional, pessoal, social e familiar perceptíveis através do reconhecimento de seus

colegas, de seus pacientes e de sua comunidade associados a uma vida familiar harmônica que

lhe dê o suporte necessário para o exercício profissional em um contexto de conforto material

adequado. Percebemos que, se esta definição for adequada, ela implica que o indivíduo de

sucesso deva atingir um equilíbrio entre reconhecimento profissional, harmonia familiar e

conforto material. A preocupação com uma destas esferas não deve prejudicar as outras. Desta

forma, as habilidades essenciais - além do conhecimento técnico, estudo contínuo da medicina,

bom senso na aplicação destes conhecimentos para resolver problemas clínicos – incluem

cultivar excelente relacionamento interpessoal com colegas e demais profissionais paramédicos,

assim como conhecimentos organizacionais e administrativos, essenciais para se gerir

um consultório ou clínica para seu conforto e de seus pacientes. Não se pode esquecer aqui

também da cultura geral do médico que deve ser sempre cultivada para que este tenha uma

visão de vida mais ampla capaz de criar pontos de intersecção com os vários interesses de seus

pacientes, colegas e amigos. Curiosamente, a maior parte destas habilidades deve ser

apreendida pelo médico fora da faculdade, já que elas não estão incluídas na maioria dos

currículos das escolas médicas.

9) Finalmente o médico deve ser um professor, mesmo que ele não tenha alunos. O termo doutor

vem do latim “docere” que significa ensinar. Ensinamos aos nossos pacientes como se conduzir

em relação às suas doenças, como seguir nossas prescrições, etc. Portanto, saber ensinar é uma

habilidade também essencial. Se ensinarmos também a estudantes e residentes, tanto melhor.

Desta forma poderemos apreender deles através das respostas que damos às suas dúvidas. Ter

residentes para supervisionar nos obriga a estudar mais ainda para nos mantermos atualizados e

capazes de responder suas perguntas. Sou um defensor da idéia do consultório privado ser

também um local de ensino de medicina para estudantes e residentes. Acho que no consultório

em que exercemos nossa prática privada é o local onde o melhor de nossa capacidade

profissional está concentrada para resolver as dificuldades de nossos pacientes e é neste palco

onde os atores – médico e pacientes – podem mostrar aos jovens residentes e estudantes, as

minúcias e a mágica do relacionamento médico–paciente. Tais conhecimentos só podem ser

adquiridos pela experiência e vivência, pois não estão nos livros, e é nossa obrigação passá-los

às novas gerações de médicos, assim como alguém (um de nossos modelos profissionais) o fez

em algum momento de nossas vidas.

10) O médico já formado ou em formação deve dedicar um tempo determinado e suficiente para

atividades que lhe tragam prazer como, por exemplo, um hobby e também para atividades

sociais e familiares, assim como para suprir suas necessidades espirituais. Férias são

imprescindíveis também e não podemos esquecer da atividade física freqüente e de uma

alimentação equilibrada pelos seus benefícios para a saúde. Acho que estar são de corpo e

mente é uma necessidade para poder cuidar bem dos pacientes. Em um outro capítulo deste

livro trataremos da síndrome da estafa profissional que pode acometer médicos e outros

profissionais para-médicos durante suas carreiras. É interessante que os antídotos para a

prevenção desta síndrome sejam as mesmas atitudes que sugerimos diariamente a nossos

pacientes para lhes preservar a saúde.


Cada um dos itens acima merecerá maior atenção no decorrer deste livro na medida em que, a meu

ver, esteja relacionado ao estudo da medicina. Não discorrerei sobre como se administra um

consultório ou como o médico deve fazer seu marketing pessoal, por exemplo. Há vários livros

sobre este assunto. Entretanto, se alguns destes conceitos forem essenciais para que o consultório

ou a clínica do médico se convertam em foco para seu aprendizado, tentarei abordá-los, ainda que

superficialmente.


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