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Conselhos para um jovem médico - Capítulo Final



CAPÍTULO 19: O MÉDICO TAMBÉM DEVE CUIDAR DE SI MESMO: A SÍNDROME DE ESTAFA PROFISSIONAL.


“Há perigos [relacionados com o excesso de trabalho]... [como a ] má saúde ... Há três requisitos para a salvação temporal – comida, sono e uma disposição agradável. Adicione a estes [requisitos] exercício adequado e terás os meios pelos quais uma boa saúde pode ser mantida. Não que a saúde deva ser um assunto para tua perpétua preocupação, mas hábitos que favoreçam um corpo sadio estimulam uma mente sã, na qual a alegria de viver e de trabalhar se amalgamam em harmonia” (William Osler; "The master word in medicine" in Aequanimitas).


Durante nossa rotina diária, cuidamos de vários pacientes, conversamos com suas famílias, com colegas, enfrentamos entraves burocráticos, recebemos elogios e reclamações. Enfrentamos situações de ansiedade com casos que não estão evoluindo bem ou com exigências de pacientes e suas famílias, enquanto a rotina de prenchimento de guias, relacionamento com fontes pagadoras e com auditores cresce a cada dia. Somando-se a tudo isso, temos as próprias angústias de viver neste tempo de insegurança e múltiplas atribulações tais como educar filhos, compartilhar o pouco tempo que temos com nossas

famílias, etc.


Apesar destas demandas a que somos submetidos todos os dias, a prática da medicina pode inclusive minorar seu impacto sobre nós se fizermos dela um antídoto e não um agente promotor. Como conseguir isso? Cuidando de nós mesmos, ou seja, seguindo nós mesmos as prescrições que damos a nossos pacientes. E se não o fizermos? Ao longo do tempo, a prática da medicina deixará de ser prazeirosa e enxergaremos nela, muitas vezes, uma das importantes razões de nossas agruras psicológicas. Estaremos diante da síndrome de estafa profissional.


Podemos definir o estado de exaustão (“burn out”) como um estado caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução de eficiência profissional que ocorre tipicamente em profissões relacionadas à área de saúde como medicina, enfermagem, etc. (1). A síndrome da estafa constitui um quadro bem definido, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. A exaustão emocional representa o esgotamento dos recursos emocionais do indivíduo. É considerado o traço inicial da síndrome e decorre principalmente da sobrecarga e do conflito pessoal nas relações interpessoais. A despersonalização é caracterizada pela insensibilidade emocional do profissional, que passa a tratar clientes e colegas não como seres humanos, mas como objetos. Trata-se de um aspecto fundamental para caracterizar a síndrome de estafa (“burnout”), já que suas outras características podem ser encontradas nos quadros depressivos em geral. Por fim, a redução da realização pessoal (ou sentimento de incompetência) revela uma auto-avaliação negativa associada à insatisfação e infelicidade com o trabalho.


Os primeiros sentimentos negativos são direcionados aos “desencadeantes do processo”, ou seja, clientes e colegas de trabalho, posteriormente atingindo amigos e familiares e, por último, o próprio profissional. Sintomas físicos associados ao desgaste incluem cefaléia, alterações gastro-intestinais e insônia, entre outros. As conseqüências da síndrome da estafa profissional podem ser graves, incluindo desmotivação, frustração, depressão e dependência de drogas. O desgaste se reflete também nas relações familiares (separações, maus tratos) e no trabalho, determinando diminuição importante do rendimento e aumento de absenteísmo.


A estafa profissional pode ser observada em todas as profissões, principalmente naquelas que envolvem altos níveis de estresse, tais como controladores de tráfego aéreo, bombeiros e, particularmente, profissionais da área de saúde, como os médicos. Isto se deve tanto às características inerentes à profissão - como convívio intenso com pacientes, intensidade das interações emocionais e a falta de tempo livre para lazer e férias - quanto às mudanças pelas quais a prática médica vem passando nos últimos 20 anos, que incluem progressivo declínio da autonomia profissional, diminuição do status social da profissão e aumento das pressões sofridas por estes profissionais.


Globalmente, a estafa profissional afeta um em cada dois médicos, sendo um terço deles afetado de forma importante e um décimo de forma severa, com características irreversíveis. Cerca de 40 a 50% dos médicos que trabalham com medicina de emergência e infectologia e 56% dos cancerologistas são acometidos pela síndrome (3). De fato, Whippen et al enviaram um questionário para 1000 oncologistas americanos selecionados aleatoriamente e, com uma taxa de resposta de 60%, os autores observaram que 56% dos entrevistados reportaram que sentiam exaustão profissional. Oncologistas que praticavam em instituições acadêmicas reportaram uma menor incidência de exaustão quando comparados com oncologistas que trabalhavam em outros locais. Uma sensação de estar falhando e um sentimento de frustração neste estudo foram as razões mais freqüentes para descrever o estado de exaustão. As principais causas de exaustão apontadas neste estudo foram tempo insuficiente para assuntos pessoais e para férias. Outras causas para exaustão incluíram a administração de cuidados paliativos e para pacientes terminais, lidar com assuntos relacionados a fontes pagadoras e excesso de trabalho. Para aliviar o estado de exaustão, 69% dos entrevistados indicaram a necessidade de mais tempo para assuntos pessoais e para férias.


Em nosso meio conduzimos um estudo para avaliar a prevalência da síndrome de estafa profissional entre cancerologistas brasileiros, correlacionando-a com dados demográficos e características de trabalho dos profissionais, avaliando suas sugestões para prevenção do quadro. Enviamos três questionários aos 645 membros da Sociedade Brasileira de Cancerologia, por correio, e após oito semanas foram recebidas 128 respostas. Foram utilizados um questionário de opinião, um questionário geral e o Inventário Maslach de Burnout, que avalia as dimensões de despersonalização, exaustão emocional e a presença de baixa realização pessoal separadamente, caracterizando-as em níveis leve, moderado ou grave.


Observamos que a síndrome esteve presente em níveis moderados ou graves nas três dimensões em 28% dos médicos. Para exaustão emocional, 54% apresentaram níveis moderado ou grave. Para despersonalização esse número foi de 90%, e para baixa realização pessaol de 21%. Correlacionando o questionário Maslach com os dados demográficos, encontramos significância estatística entre prática de atividade física ou hobby e menores níveis de exaustão emocional (p=0,008), não trabalhar em instituição de ensino com menor realização pessoal (p=0,031), trabalhar em instituição pública e menores níveis de exaustão emocional (p=0,0012) e trabalhar apenas em instituições privadas com maiores níveis de despersonalização (p=0,021). Os cancerologistas apontaram como alternativas mais relevantes na prevenção da síndrome “menos burocracia” (72,4%) e “limitação do número de pacientes” (72,4%).


Nós concluímos neste estudo que a síndrome do desgaste profissional é freqüente entre médicos cancerologistas brasileiros e achamos que a prevalência desta síndrome tende a aumentar devido às crescentes pressões sofridas por profissionais da área da saúde, a progressiva redução da autonomia destes profissionais e de seu status profissional.


Segundo Lyckholm, as principais causas de exaustão profissional entre oncologistas são: 1) tempo insuficiente de férias; 2) sensação de estar falhando; 3) expectativas irreais, 4) sentimentos de raiva, frustração, inadequação e de auto-preservação; 5) assuntos relacionados fontes pagadoras e 6) lidar com perdas (luto).


Reflitamos criticamente, e muitas das atitudes que prescreveríamos para nossos pacientes nestas condições devem ser seguidas rotineiramente por nós, médicos, que queremos viver do bom exercício da medicina por muitas décadas ainda. Comecemos então pelas recomendações básicas que constituem, a meu ver, os quatro pilares imprescindíveis para manter a uma vida estruturada: bom sono, dieta balanceada, atividade física regular e tempo para se dedicar à vida em família. Adicionemos a estas recomendações básicas algumas outras

que são também muito importantes. Por exemplo, devemos cultivar um hobby, algo que nos seja prazeiroso e que nos reenergize quando nos dediquemos a ele. Ter uma visão reflexiva da realidade, seja através de leituras de temas como filosofia, sociologia, psicologia, antropologia ou religião nos ajuda muito a enfrentar o dia a dia dos questionamentos existenciais que nossos pacientes nos fazem e que acabam por suscitar em nós estas mesmas dúvidas. Cultivar a nosso lado espiritual através da uma religião ou mesmo de meditação ou outras práticas é também muito importante. Outra atividade importante é luta por uma ou mais causas que julguemos importantes envolvendo filantropia ou não. Com estas atividades estaremos nos aprimorando em paralelo ao exercício da medicina que, por sua vez, como vimos anteriormente, também tem a capacidade de nos melhorar enquanto pessoas. Acredito, portanto, que cuidando bem de si mesmo, o médico tratará melhor aos seus pacientes,além de evitar a síndrome da estafa profissional.


BIBLIOGRAFIA

1) José Ingenieros. O Homem Medíocre. Ícone Editora, 2006. São Paulo.

2) Robert B Taylor. Academic Medicine: A Guide for Clinicians. Springer, 2006. New York.

3) Robert B. Taylor. The Clinician’s Guide To Medical Writing. Springer, 2006. New York.

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5) Mark E. Silverman, T. Jock Murray, Charles S. Bryan. The Quotable Osler. American college

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10) Lyckholm L. Dealing with stress, burnout, and grief in the practice of oncology. Lancet Oncol.

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12) Whippen DA, Canellos GP. Burnout syndrome in the practice of oncology: results of a random

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Samano ES, Goncalves MS, Del Giglio A. Incidence of the burnout syndrome among Brazilian

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