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Conselhos para um jovem médico - Capítulos 16, 17 e 18



CAPÍTULO 16: A ARTE DA MEDICINA


“Para servir a arte da medicina como ela deve ser servida precisamos amar nosso próximo” (William Osler. The Evolution of Internal Medicine. In: Modern Medicine Its Theory and Its Practice).


Caro leitor, chegamos ao ponto que considero talvez o mais fascinante de nossa profissão. Precisamos agora nos concentrar em como conversar com nossos pacientes. Tarefa árdua, de certa forma, pois o ensino desta habilidade é sofrível durante o curso médico. Quando me pergunto do porquê desta deficiência, esbarro na situação quase universal de que o professor - a quem cabe ensinar esta habilidade - não conversa com o paciente que é assistido pelos estudantes e jovens médicos. No modelo atual de ensino da medicina que se concentra primordialmente no ambiente hospitalar, o professor orienta usualmente apenas a parte técnica do cuidado do paciente sem se preocupar em ensinar como os alunos e jovens médicos deveme se comunicar com o paciente.


Entretanto, é o professor o indivíduo indicado para ensinar como se comunicar com um paciente porque ele adquiriu esta habilidade a partir do convívio com médicos mais experientes, ao longo do exercício da medicina e não em livros. Desta forma, esta habilidade deve ser transmitida diretamente de professores a alunos pois, tão importante como ensinar como tratar um paciente é ensinar ao jovem médico como explicar a este paciente detalhes acerca de sua doença e tratamento. Sem esta compreensão, o paciente não aderirá às nossas propostas terapêuticas ou estabelecerá uma relação médico-paciente adequada conosco. De fato, o termo doutor deriva do latim "docere" que significa ensinar, ou seja, uma de nossas funções mais importantes é saber explicar e orientar a nossos pacientes.


Creio que a única maneira de se ensinar efetivamente aos alunos e jovens médicos como se comunicar com pacientes é que estes observem a seu professor cuidar de seus prórpios pacientes, de preferência em seu próprio consultório. Eu já venho há alguns anos mostrando como eu atendo a meus pacientes para meus residentes em meu prórpio consultório. O residente senta a meu lado e apenas observa como eu atendo a cada paciente que entra, como converso, extraio a anamnese, avalio seus exames complementares, explico o diagnóstico e o tratamento proposto. Com certos pacientes posso ensinar como se dá uma má notícia, com outros posso demonstrar como cultivar uma relação médico-paciente que beira a amizade, em alguns encontros o paciente nos ensina algo de novo e saimos sempre enriquecidos e muitas vezes até emocionados com o que ouvimos dos doentes. O residente vê assim como é um dia normal de trabalho em consultório privado, com todos os seus altos e baixos além de como organizamos nosso atendimento, como conversamos telefonicamente com pacientes, familiares e colegas. Esta é uma das formas mais plenas de se ensinar medicina a meu ver. Há ensinamento técnico misturado com o cultivo da relação médico-paciente em toda a sua plenitude. Curiosamente, após anos desta experiência, tivemos pouquíssimas queixas de pacientes por termos um residente na sala.


Algumas dicas em relação ao relacionamento do médico com pacientes, seus familiares e colegas.


1) Procure conhecer o que é importante para cada paciente seu incluindo quais são os seus hobbies. Quando descobrir e puxar assunto ou fizer alguma pergunta que faça o paciente falar do que ele mais gosta, você perceberá um sorriso especial e um certo prazer a mais na conversa. Alguns falarão sobre o mercado financeiro, outros sobre os seus animais de estimação, viagens, família, carros, vinhos, etc. Se você tiver a disposição de conversar com seus pacientes e conseguir com que eles falem do que mais lhes interessa, você aprenderá muito sobre as mais variadas áreas e seus pacientes terão um ambiente muito mais descontraído e agradável para se consultarem. Durantes estas conversas descontraídas, muitos temas não relacionados aparecerão e você começará a verdadeiramente conhecer os valores de seus pacientes. Este conhecimento é fundamental para que você possa tratá-los da melhor forma para eles mesmos. Assim, para um paciente para quem viajar é a atividade mais importante, muito provavelmente você deverá agendar um procedimento para depois do seu retorno. Da mesma forma se, por exemplo, para um paciente sua atividade profissional for a sua maior preocupação, deveremos escolher a opção terapêutica que menos interfira nesta atividade. Portanto, todo o conhecimento que você obtiver acerca de seus pacientes será fundamental para melhor orientar este paciente também do ponto de vista médico. O interesse que o paciente perceberá que você tem pelo que é importante para ele certamente reforçará também a relação médico-paciente. Este tipo de conhecimento, todavia, não se adquire em consultas de 5 minutos de duração nas quais uma ilusão de eficiência substitui a superficialidade de um relacionamento médico-paciente limitado somente à doença.


2) Dê atenção às todas as queixas do paciente. Muitas vezes um sintoma que nos parece irrelevante incomoda muito ao paciente e o seu alívio pode ser o que mais impressione favoravelmente ao paciente quanto a sua capacidade profissional. Você poderá até tê-lo diagnosticado corretamente, mas o alívio do sintoma incômodo é o que ele mais apreciará.


3) Contar ou não para um paciente acerca de seu mau prognóstico. Devemos sempre contar a verdade para o paciente, ou seja, tudo o que falarmos para um paciente deve ser verídico. Todavia, só somos obrigado a contar-lhe o que nos for por ele perguntado. Desta maneira, o paciente irá, através de suas perguntas, nos direcionar naturalmente para o que ele pode ouvir. Assim, raramente encontaremos um paciente que nos perguntará abertamente detalhes precisos de seu prognóstico, situação na qual deveremos dar a informação correta. Devemos, entretanto, sempre, em situações de prognóstico ruim, proativamente procurar e explicar a parentes ou responsáveis pelo paciente os detalhes de seu prognóstico para que estes possam fazer planos compatíveis com o quadro clínico do doente.


4) O que é mau do ponto de vista prognóstico para você que conhece detalhes científicos da doença do paciente não o é, necessariamente, para o paciente que não está familiarizado com todos os detalhes de sua doença. O paciente se baseia, para aquilatar o significado das anormalidades de seu exame clínico ou de seus exames complementares anormais na reação que o médico esboça frente a estes achados. Houve uma situação em que eu detidamente analisei uma tomografia de um paciente procurando identificar algo mencionado no laudo sem sucesso. O paciente interpretou minha persistência em procurar o achado mencionado no laudo como um sinal de gravidade, quando lhe expliquei, rimos juntos pelo mal entendido. Certas vezes um exame de controle demonstra uma metástase que não existia. Eu posso até saber que o paciente passará a ser incurável depois deste achado, mas ele não. Será que preciso explicar-lhe isto sem que ele me tenha especificamente questionado sobre o significado deste achado?


Deduzimos do acima exposto que o médico não deve nunca se demonstrar assustado ou desconfortável com um dado achado. Se o médico está inseguro ou assustado, o paciente se desesperará com razão. Curiosamente, esta regra vale até quando o médico não souber como atuar em uma dada situação. Nestes casos ele deverá consultar livros, a internet ou outros médicos e considerar também solicitar uma segunda opinião de um outro colega para seu paciente. Entretanto, ele tomará estas providências com segurança e não demonstrando estar assustado ou inseguro para o paciente. A própria referência do paciente para um outro colega mais capacitado ou um outro especialista pode dar também mais segurança ao paciente de que o médico sabe do que ele precisa e já o está encaminhando para conseguir suas necessidades. Percebemos que se tivermos segurança no reconhecimento de que não sabemos o que devemos fazer, mas orientarmos o paciente para buscar a resolução de seu problema através de exames complementares ou consultando outros colegas, o paciente sairá da consulta tranquilo com a sensação de que poderá trilhar um caminho que o levará a resolver seu problema. A meu ver, portanto, o que pode angustiar o doente é a falta de perspectiva para seu caso ou perceber a insegurança do médico. "A medicina nem sempre cura mas sempre alivia", diziam nossos mestres. Portanto, por pior que seja a situação clínica de um paciente, devemos sempre estar no leme, como o capitão de um navio, pois se seu sofrimento não for passível de solução, poderemos pelo menos aliviar seu sofrimento.


5) Seja extremamente claro em suas explicações. O paciente e seus familiares tem que sair da consulta com todas as suas dúvidas esclarecidas e com a possibilidade e esclarecer todas as outras que surjam posteriormente. Não hesite em escrever suas orientações para que o paciente tenha delas um registro para consulta posterior. Antecipe sempre efeitos colaterais que são possíveis para uma dada medicação ou procedimento. Os pacientes sentem-se mais seguros quando efeitos indesejáveis que porventura ocorrerem já lhes tiverem sido explicados.


6) Esteja sempre de acordo com sua consciência. Muitas vezes um paciente ou seus familiares me pedem para fazer um tratamento no qual não acredito. Mesmo, arriscando perder este paciente, não faço o que não acredito ser melhor para o paciente. Posso me equivocar, todavia, e devo sempre questionar meu julgamento, mas devo também sempre estar em paz com minha consciência. No cenário médico atual pautado pela medicina baseada em evidência, com a disponibiulidade de múltiplas informações acerca de diversos tratamentos, podemos sempre buscar mais dados para averiguar se nosso julgamento é ou não correto.


7) Diante de um prognóstico ruim e um bom, escolha o melhor, mesmo que não tenha sido feito por você. Muitos pacientes ouvem uma segunda opinião. Se um médico respeitado difere de você no sentido de dar um melhor prognóstico, siga sua opinião ou trasnfira o cuidado de seu paciente para este colega. O paciente merece sempre a melhor chance e você pode estar errado em sua visão mais pessimista do seu caso.


8) Não julgue seus pacientes. Mesmo que eles pensem diferentemente de você nos planos ideológicos políticos, sociais, etc, não deixe que preconceitos seus aflorem na relação médico-paciente e a prejudiquem. Se você não fuma e acha errado que se fume em geral, não penalize o fumante que lhe procura por uma queixa relacionada ao seu tabagismo. Procure tratá-lo de forma neutra, não tentando culpá-lo pela sua doença.


9) Quando você for chamado para uma segunda opinião, reencaminhe o paciente sempre para o colega de origem. Só fique com o paciente se tivere havido quebra do vínculo médico-paciente com o colega que o seguia ou se houver um claro erro na condução do caso que você não crê ser possível corrigir, mesmo que você se comunique com o colega. Acho que uma segunda opinião pode fazer com que o paciente se sinta mais seguro com a condução de seu caso e pode ser, sesta forma, muito benéfica. Para tal, se você concordar com o que tiver sido feito, expresse isto claramente para o paciente sem reservas. O outro colega poderá, também, estar tratando o paciente de forma diferente da que você costuma conduzir um caso semelhante, porém, se a forma do colega tratar for também considerada correta, reforce este conceito para o paciente e não precisa colocar naquele momento que você pensa diferente. lembre que seus pacientes estarão também procurando ouvir segundas opiniões e que o mesmo poderá ocorrer com eles.


10) Como dizia William Osler, não acredite no que um paciente diz sobre outro colega. Pacientes podem entender erradamente o que falamos, apesar de todos o nosso cuidados em sermos claros. Portanto, filtre especialmente o que pacientes dizem sobre outros médicos, especialmente se nos contam acerca do que outros colegas falaram de nós. Esta regra até o momento, em minha experiência, não conhece exceção. Muitas amizades podem se perder inutilmente se não seguirmos este sábio conselho de William Osler.


11) Comunique-se sempre com seus colegas acerca dos pacientes para evitar mal entendidos. Eu sempre ligo para o colega que me referiu um paciente tão logo o tenha visto pois, muitas vezes, depois que o paciente sai do consultório ele telefona para o colega e é bom que este já esteja informado sobre o que achei do caso. Eu gosto também de me comunicar por e-mail ou mesmo escrevendo uma pequena cartinha no meu próprio receituário. Acho que quando um paciente percebe que os médicos que estão cuidando dele estão sintonizados em seu pensamento em relação ao seu caso, ele fica mais seguro quanto a conduta.


12 ) A regra do meio. Excetuando o estudo da medicina e a dedicação a nossos pacientes para os quais o limite é a capacidade máxima do médico, no mais vale a regra de se optar pelo caminho intermediário. Por exemplo, quanto a como se vestir, não use trajes altamente sofisticados ou muito despojados para não constranger a pacientes que diferentes camadas sociais. Da mesma forma, quanto a honorários, cobre sempre conforme a média do cobram colegas com a mesma formação e experiência que você tem e que trabalham na mesma área em que você exerce. Em relação a honorários, lembre que seu trabalho não tem preço e, por isso, caso algum paciente não puder arcar com o valor usual de seus honorários, diminua o seu valor para o quanto ele lhe possa pagar sem constrangimento para ele.


13) O imperativo ético maior da medicina, a meu ver, é termos nosso paciente sempre em primeiro lugar. Isso vale diante de escolhas difíceis da vida do médico nas quais, por exemplo, devemos ir contra interesses de seus familiares, outros colegas ou de companhias de seguro, etc. As vezes, até mais difícil é reconhecer o nosso próprio conflito de interesse em relação a conduta a ser tomada e eliminá-lo para poder aconselhar o paciente da melhor maneira para ele. O que nos interessa não é tratarmos mais um paciente e sim nossa reputação que é construída ao longo dos anos de nossa carreira pelos resultados obtidos com nossos pacientes. Sempre que aconselharmos o paciente no melhor caminho para ele, independentemente dos interesses que lhe sejam estranhos, criaremos uma relação de confiança que é a base de um bom relacionamento médico-paciente.



CAPÍTULO 17: MEDICINA E HUMANISMO


“Eu sou uma parte de tudo que encontrei” (Alfred Lord Tennyson. Ulysses).


A Medicina é a mais humana das ciências e a mais científica das humanidades. (Edmund D. Pellegrino.Humanism and the Physician)


Podemos conceber a interface entre Humanismo e Medicina por pelo menos duas vertentes. Por um lado poderemos abordar a interrelação entre as ciências humanas como a Sociologia, Psicologia, Antropologia, Filosofia e a Medicina. Por outro lado, podemos entender que este tema se refira a relação da Medicina científica com o ser humano através de uma abordagem mais voltada para o seu lado emocional, social e cultural, isto é, de forma mais humanizada ou para alguns de maneira mais holística. Como iremos perceber adiante, todavia, estas duas visões não são excludentes.


Comecemos pela segunda vertente. Aqui, talvez, diante da dificuldade de se definir um médico humanizado, creio que seria mais fácil tentar entender este conceito pela sua antítese, ou seja, tentar imaginar um médico não humanizado. Servimo-nos para este exercício de uma cena freqüente no meio médico, a do profissional que recebe ao paciente portador de uma dada enfermidade de forma rápida e eficiente, concentrando-se tão somente em detalhes da história e do exame clínico que concernem ao órgão doente para a seguir indicar um tratamento específico. Não houve, durante este encontro, nenhum interesse do médico por qualquer outra faceta do paciente, sua história de vida, sua personalidade, seus interesses, enfim, por nada que não a enfermidade ou sintoma que o fez procurar a este médico. Acredito que esta descrição preencheria a todos os critérios de uma consulta médica somente técnica e não considerada humanizada para a maioria dos leitores.


Como poderíamos humanizar este médico? A resposta é simples, fazendo-o se interessar pelo paciente em seus apectos não afetos à enfermidade em si. Fazendo-o enxergar a dimensão do pessoal do outro, do "Tu" para Martin Buber (conforme discutimos no capítulo sobre a relação médico-paciente). Mas, como despertar esse interesse no médico? Podemos inicialmente discorrer sobre argumentos a favor desta abordagem médica não restrita apenas à doença, para depois especular em como instrumentar este médico para esta habilidade.


Acredito que o principal argumento para justificar esta abordagem é o aumento da eficácia do médico que prescreve algo que seu paciente pode cumprir. Se o paciente não adere ao que prescrevemos, nossa consulta será inútil para ele. Por exemplo, um paciente que está acaba de perder seu emprego obviamente estará estressado e não conseguirá adquirir uma medicação mais cara, por isso deveríamos prescrever uma medicação que lhe seja acessível. Como saber disso se não conversarmos com o paciente sobre detalhes de sua vida pessoal não afetos necessariamente à doença? O segundo argumento a favor desta abordagem mais personalizada é a maior satisfação de ambos, médico e paciente. Como paciente, eu já passei por um colega, por exemplo, cujo único interesse era algum detalhe como nível de colesterol, peso, etc. Havia um interesse educado e tremendamente superficial que beirava a mais social cortesia em outros aspectos meus e, findo um quase cronometrado tempo de alguns poucos minutos, meu colega finalizava a consulta, sempre da mesma forma estereotipada. Eu não saia satisfeito com esta consulta e creio que ele também ao longo dos vários anos de sua carreira, não ganhou nada além do pagamento de cada paciente. Provavelmente não estabeleceu muitas amizades duradouras e nem ganhou uma gama enorme de conhecimento e experiência de vida que nossos pacientes voluntariamente nos passam todos os dias. Portanto, este médico que vai além da parte estritamente técnica de nossa profissão pode desfrutar também do próprio prazer envolvido em se conhecer realidades de pessoas diferentes e adquirir assim novos conhecimentos que lhe permitirão intensificar seu crescimento pessoal a partir destas mesmas experiências. É como se a personalidade do médico jovem fosse um diamante bruto que se lapida à medida que ele se permite vivenciar as experiências de vida de seus próprios pacientes ao longo de sua carreira. Portanto, percebemos claramente que esta abordagem que se calca na pessoa ( no "Tu") do doente lhe dá maior eficácia e satisfação profissional.


Um terceiro argumento a favor deste tipo de abordagem é nos dar um senso da finalidade de nosso trabalho. Muitas vezes me pergunto qual é a finalidade do trabalho do médico. Obviamente, respondo, objetivamos o aumento da quantidade equalidade de vida de nossos pacientes. Ai surge uma segunda pergunta que é: para que o fazemos? A resposta é dada, a meu ver, pela somatória de tudo de bom que estes pacientes possam ter feito, de acordo com seus valores e conceito de felicidade, na vigência de um estado de saúd favoráveis a tais atividades e que foi atingido ou conservado grças às nossas intervenções médicas. Quantas vezes vibrei com conquistas de meus pacientes que se formaram, casaram, tiveram filhos, atuaram nos mais diversos setores das artes, se elegeram para cargos públicos, etc. Só poderemos compartilhar deste tipo de alegria com nossos pacientes se conseguirmos compreender a sua história de vida, seus valores e suas metas. Com este conhecimento, o valor do que fazemos aumenta, na medida em que, em parte pela nossa participação na sua saúde, vencemos juntamente com nossos pacientes seus vários desafios.


Agora, que mostramos argumentos para corroborar o porquê abordar o paciente desta forma mais personalizada, temos que pensar no como fazê-lo. Eu acho que a maioria de nós médicos aprendeu de forma auto-didata, ouvindo a seus próprios pacientes. Não creio que tivesse sido necessário uma instrumentalização prévia do médico através do estudo de humanidades para que ele fosse eficaz nesta habilidade de ouvir a seus pacientes. Acho que o principal, todavia, é um ouvir que decorra do interesse genuíno do médico no conteúdo do que vai lhe ser contado pelo paciente. O paciente, como todos nós, falará de si, do que lhe é importante, do que lhe chama a atenção no mundo em que vive e que é por nós compartilhado. Interessar-se e ouvir por um insaciável interesse do médico é uma habilidade a ser cultivada porque é através dela que, nos tornando interlocutores eficazes, faremos com que se estabeleça o diálogo entre médico e paciente. O diálogo, por sua vez faz com que reconheçamos a existência de um "Tu", nos faz melhor contextualizar o "Isso" (a doença) e nos engrandece por nos fazer melhor apreciar o nosso próprio "Eu". Este ato de ouvir, se interessar pelo outro e aprender dele é a meu ver o que humaniza o médico. Não precisamos, todavia, a meu ver, de nenhuma instrumentalizazão especial para parender a ouvir a nossos pacientes que não o interesse por eles e pelo que eles nos contam. Deixá-los falar quando eles precisam e estimular-lhes a nos contar fatos interessantes de suas vidas ou sobre seus interesses com perguntas bem formuladas, em momentos adequados e passíveis de amplas respostas são algumas das dicas neste sentido. Pergunte aos pacientes se têm algum hobby, em que trabalham, se são casados e se tem filhos, qual a ocupação do conjuge e dos filhos, com quem moram, etc. Saber conversar sobre temas de atualidades pode também render frutos interessantes no sentido de conhecer diversas opiniões de pacientes diferentes sobre um mesmo fato. Explore a vontade esta habilidade, fale pouco e ouça muito e você descobrirá um novo universo na prática da medicina.


As humanidades entretanto, apesar de não serem imprescindíveis para aprender a ouvir a nossos pacientes, podem contextualizar melhor o que ouvimos, explicar o porquê de muitos fatos que influem na vida de nossos doentes. Entender um pouco de economia para comprender porque estamos diante de um momento difícil do ponto de vista econômico, poderá explicar porquê há um aumento do desemprego. Ter conceitos antropológicos nos conferirá um maior respeito pelo contexto cultural e religioso de nossos pacientes e nos

ajudará a explorar como, dentro de seu contexto cultural, determinados fatos são avaliados e certos sintomas podem inclusive ser ocultados. Saber um pouco de história pode nos ensinar a entender o passado de pacientes. Certa vez atendi a uma paciente que foi sobrevivente dos campos de extermínio de Hitler. Qual a minha surpresa ao encontrar tatuado em seu antebraço seu número dado no campo de concentração. Conhecer algo sobre esta época, sobre a magnitude das atrocidades que ela vivenciou me fez comprender porque ela não conseguia me falar do que ela sofreu nessa época pois ela como que bloqueou estes fatos de sua memória para evitar o sofrimento causado pela sua lembrança.


O estudo da filosofia, especialmente da lógica e a leitura de textos clássicos como diálogos de Platão, Ética a Nicômano de Aristóteles, Discurso sobre o Método de Descartes, etc pode em muito melhorar nossa capacidade de ordenar nossos pensamentos e comunicá-los de forma didática e eficiente para nossos pacientes, alunos e orientandos. Um médico, portanto, deve ser, a meu ver, culto e atualizado, tanto na medicina como no que acontece no mundo para poder se comunicar melhor com seus pacientes.


Acredito também que uma educação básica calcada num estudo das humanidades possa despertar em alguns o interesse do médico para com a pessoa de seu paciente, envolvendo seus interesses, suas idéias, sua história de vida e seus valores. Entretanto, não me iludo no sentido de pensar que as humanidades podem por si dar ao médico uma atuação adequada no plano moral pois não podemos nos esquecer que atrocidades como o Holocausto foram perpretadas por um povo cuja educação básica era notoriamente rica na ênfase

ao estudo das humanidades. As humanidades podem nos instrumentalizar a pensar melhor, a nos comunicar com maior eficiência, a melhor compreender o que nos pacientes nos contam, mas não a sermos bons médicos. Para ser um bom médico, a meu ver, o indivíduo precisa ser uma boa pessoa à qual se agreguem capacidade e motivação para estudar perenemente e um interesse genuíno por outros seres humanos. Seres que, sob o pretexto de uma doença ou sintoma, venham a lhe procurar para com ele estabelecer um relacionamento profissional e humano aprofundado que é a base da relação médico-paciente.



CAPÍTULO 18: SE VOCÊ QUER SEGUIR UMA CARREIRA ACADÊMICA.


“Em poucas coisas o homem pode chegar ao Ideal que a imaginação assinala: sua glória está em marchar em direção a ele, sempre inalcançado e inalcaçável” (Jose Ingenieros. Em: O Homem Medíocre).


“O que serve a um ideal vive dele; ninguém o forçará a sonhar o que não quer nem o impedirá de alcançar seus sonhos”(Jose Ingenieros. Em: O Homem Medíocre).


Caro leitor, gostaria de discorrer um pouco sobre a academia e a prática da medicina em nosso país. Entendo por academia um vínculo profissional do médico com uma instituição acadêmica - faculdade de medicina, hospital universitário, etc - na qual se formam médicos e/ou residentes, após já ter completado sua formação. É característico da vida acadêmica que haja além de atividades assistenciais, ensino e pesquisa. Não me refiro aqui, entretanto, à pós-graduação - tanto strictu sensu (mestrado ou doutorado) ou latu sensu (programa de residência médica). Apesar da pós-graduação ser, a meu ver, imprescindível para uma vida na academia, esta atividade representa apenas uma fase de uma vida acadêmica. Tratarei neste ensaio principalmente do vínculo duradouro do médico com a instituição acadêmica que geralmente se estabelece durante ou logo após a pós-graduação e perdura por vários anos.


A vida acadêmica é uma fonte inesgotável de motivação e auto-aprimoramento, a meu ver. O contato com jovens médicos e pesquisadores nos rejuvenesce mantém aceso continuamente o desafio de estudar mais para poder ensinar e continuar aprendendo. Formar jovens profissionais, observar o seu êxito nas diversas atividades a que se destinarem depois de sua formação se constitui em um enorme prazer. Perceber nestes indivíduos que passaram por você durante sua formação, marcas de sua contribuição ao seu ensino, dá um significado muito maior à medicina que praticamos.


Antes de mais nada, entretanto, preciso compartilhar com você, leitor, que ter uma vida acadêmica não é imprescindível para que você seja um bom médico. Vejo e já vi excelentes colegas trabalhando arduamente em seus consultórios e produzindo excelentes resultados terapêuticos para seus pacientes sem manter nenhum vínculo acadêmico. Estes talentosos profissionais certamente se mantêm atualizados e estudam continuadamente sem, todavia, sentirem a necessidade de pesquisar ou ensinar e, portanto, de se manterem ligados à academia. Um dos grandes erros na vida acadêmica é ter um destes talentosos profissionais que não tem a intenção de pesquisar ou ensinar ocupando um cargo em uma instituição de ensino médico na qual estas funções são imprescindíveis. Um outro equívoco que já vi muitas vezes é o de se contratar para uma posição de ensino um médico que não seja hábil na sua especialidade e que, portanto, apesar de querer ensinar, não tenha o que transmitir do ponto de vista prático clínico ou cirúrgico para seus alunos.


Este é o freqüente caso do indivíduo que ocupa uma posição de destaque no campo acadêmico, mas que nenhum médico da instituição lhe referiria uma parente para que ele o trate. Obviamente, este indivíduo poderá ser um exímio pesquisador e justificar sua proeminente posição acadêmica em cima de méritos científicos indiscutíveis. Entretanto, não raramente, já me deparei com indivíduos que, sem habilidades assistenciais ou científicas, têm posições hierarquicas importantes e não justificáveis por critérios outros que não um sistema falho que lhes proveu esta injustificada ascensão.


Quem deve se dedicar à carreira acadêmica, então? Alguém que seja apaixonado por apreender e pesquisar e, como resultado desse aprendizado, tenha o que ensinar e se disponha a transmitir esse conhecimento. Dentre estes indivíduos, ao longo dos anos, emergirão naturalmente líderes que irão chefiar disciplinas, departamentos, etc. A liderança, a meu ver, no mundo acadêmico, deve idealmente se construir sobre uma reputação acadêmica robusta ás custas de habilidades clínicas e/ou científicas indiscutíveis. A esta reputação dependente do mérito individual, devem se associar ainda no líder acadêmico, bom relacionamento inter-pessoal, capacidade de motivar pessoas, de reconhecer e formar talentos, uma visão de futuro e um comportamento ético exemplar.


A meu ver, as habilidades clínicas e científicas que constroem a reputação científica do líder, por sua vez, são para ele uma inesgotável fonte de subsídios para aprimoramento para as suas outras áreas de atuação.Da clínica o futuro líder aprende e treina sua capacidade de o relacionamento interpessoal, a sua capacidade de ensinar além de cultivar também o seu comportamento ético. Da experiência científica o líder adquire também a visão de futuro, o dinamismo intelectual, a capacidade de reconhecer e formar talentos, de discutir e de mudar de opinião diante de novos dados em um contexto ético de compromisso absoluto com a boa qualidade de seus dados. Além disso, o líder que já passou pelas posições que ele hoje supervisiona será mais eficaz do que aquele que chefia clínicos ou cientistas sem nunca ter atendido a pacientes ou pesquisado. É óbvio, entretanto, que não esperamos que todo o líder seja igualmente exímio em todas as áreas de atuação acadêmica como ensino, pesquisa, assistência e administração, mas o que importa é que o conjunto de profissionais por ele liderado seja excelente em todas estas áreas através do compartilhamento harmônico destas funções entre eles. Reconhecer talentos para cada uma destas funções é, portanto, uma das importantes habilidades de um líder acadêmico. O talentoso profissional chegou até onde está através de esforço e, portanto, por mérito pessoal. Escolher indivíduos para posições acadêmicas por critérios outros que não baseados em mérito é a razão da pior chaga da vida acadêmica que é a mediocridade. A mediocridade pode chegar a dominar um departamento ou disciplina, criando uma verdadeira mediocracia, conforme descreveu brilhantemente José Ingenieros em seu livro “o Homem medíocre”. A mediocracia, por sua vez, no afã de se perpetuar abafa a expressão do talento e da genialidade e suprime assim a produtividade

acadêmica. O antídoto para a mediocracia é indubitavelmente a meritocracia que deve se iniciar nos patamares mais baixos de entrada dos futuros médicos acadêmicos como o ingresso na faculdade, nos programs de residência e pós-graduação.


Qual é o resultado de um tipo de liderança como a acima descrita? Teremos uma disciplina, departamento ou faculdade cada vez mais repleta de indivíduos talentosos sejam como professores, cientistas ou clínicos. O bom líder acadêmico buscará , portanto, desenvolver cada um até o máximo de suas habilidades para que o conjunto de seus liderados possa se transcender a si mesmo continuadamente. Ele os direcionará para patamares de qualidade mais elevados as atividades de pesquisa, assistência e ensino, buscando recursos

para fomentar a pesquisa, maximizando a eficiência do trabalho do clínico e valorizando a sua atuação, integrando as atividades de pesquisa e assistência ao ensino e coordenando harmonicamente um conjunto elementos talentosos e motivados que irão fazê-lo se distinguir pela sua capacidade de agregação e administração eficaz dos recursos humanos a seu dispor. Este líder descobrirá qual é o sonho de cada um de seus liderados e fará com que cada um o realize através de sua participação no trabalho coletivo desenvolvido por este mesmo conjunto de indivíduos. O que sonha em pesquisar que o faça enquanto trabalha neste grupo, o que sonha ensinar ou administrar idem, e assim por diante, englobando todos os indivíduos de que se dispõe e recrutando outros para construir uma equipe exemplar no qual reside a sua força para desenvolver um trabalho acadêmico significativo. Uma analogia pode ser feita com uma orquestra cuja regência e constante aprimoramento dependem de seu maestro, cujo produto de seu trabalho será percebido pela excelência da performance oriunda do ressoar conjunto e coordenado de cada um dos virtuoses que compõem a orquestra.


Muitas vezes, entretanto, me defrontei com chefes (não líderes) sem os atributos acima descritos e que, por temer a emergência de jovens talentos dotados de iniciativa própria e cheios de vitalidade, não encontraram alternativa que não abafar sua motivação e talento. A estes pobres frustrados, restaram duas opções: o egresso do departamento ou disciplina para manter vivos em si seu talento e motivação ou a resignação. O resignado perde ao longo do tempo a motivação e seu talento é silenciado por não ter podido se manifestar. Ele perde o trem da vida acadêmica cuja maior produtividade, segundo Taylor, se restringe geralmente aos seus 10 primeiros anos. Ao se mediocrizar, este ex-talento se converte agora, após alguns anos de abafamento,

em um indivíduo resignado e improdutivo, apto para ser um líder de um sistema mediocrático.


Para você que quer uma vida acadêmica, um conselho, evite a mediocracia. Busque um lugar onde você possa crescer fazendo o que gosta no ensino ou na pesquisa. Procure uma estrutura que reconheça seu mérito e lhe estimule a atingir o máximo do seu potencial acadêmico, mantendo seu sonho vivo todos os dias.

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