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Conselhos para um jovem médico - Capítulos 6 e 7



CAPÍTULO 6: AS PARTES DE UM ARTIGO CIENTÍFICO


“Com paciência e perseverança, haverá sempre uma revista para receber um estudo bem desenhado, cuidadosamente conduzido e escrito com clareza” (Robert B.Taylor, Academic Medicine, Springer Science, 2006, NY, first edition)


Para conseguirmos entender um artigo científico precisamos começar por conhecer sua estrutura básica e qual a finalidade de cada uma de suas partes. Estes conhecimentos serão também úteis para aqueles que mais tarde escreverão artigos científicos e teses.


2) As partes de um artigo científico:

2.1) Título:

Um artigo obviamente se inicia pelo seu título. O Título por sua vez pode ser de vários tipos. Um título pode resumir a conclusão do artigo, por exemplo: “A doença X só acomete mulheres”. O título pode ainda dar uma idéia do desenho experimental do trabalho: “Droga A versus droga B para o tratamento da doença X: resultados de um estudo fase III duplo cego aleatorizado”. Um título pode ainda refletir o objetivo do artigo: “Uma atualização acerca do tratamento medicamentoso da doença X”. A maior parte dos leitores apenas toma contato com o título do artigo, daí a necessidade dos autores o escolherem bem, pois, se o título não atrair a atenção do leitor, este não prosseguirá na leitura do restante do artigo.


Após o título encontramos os nomes dos autores, suas afiliações acadêmicas e o endereço para correspondência. Este endereço é útil, pois se precisarmos do artigo na íntegra ou tivermos alguma dúvida quanto ao mesmo, poderemos escrever para o autor responsável pela correspondência referente ao artigo e este, geralmente, honrado pelo nosso interesse em seu trabalho, nos enviará uma cópia do mesmo ou a resposta às nossas dúvidas por correio ou e-mail.


2.2) O resumo do trabalho:

O primeiro professor que me ensinou a escrever um artigo científico dizia que o título deveria ser sempre chamativo e capaz de seduzir a atenção do leitor (“sexy”em suas próprias palavras) enquanto o resumo seria a sua parte mais importante. Este professor me ensinou ainda a sempre começar a escrever o trabalho pelo resumo como forma de organizar meus pensamentos e sintetizar os resultados e conclusões do trabalho. Após este esforço de síntese, escrever o trabalho - sem as limitações de espaço impostas para o resumo - é geralmente muito mais fácil.


Sabendo-se também que o título e o resumo (“abstract”) serão talvez as únicas partes de um artigo que a maioria dos leitores terão acesso ou se interessarão por ler, várias revistas médicas estimulam um estilo estruturado. Um resumo estruturado se divide em mini-sessões: introdução (contexto que dá sentido ao trabalho dentro de uma área do conhecimento específica), objetivos, metodologia (tipo de estudo, número de sujeitos incluídos, critérios de inclusão e exclusão principais e intervenções executadas nos sujeitos), resultados e conclusões. Tais informações devem ser sucintas e muito bem selecionadas, para que o resumo contenha um número máximo de palavras (geralmente 150 a 250) estipulado e presente nos regulamentos da revista (instruções para autores). Estas mini-sessões - que imitam aquelas presentes no artigo completo - visam dar uma idéia clara e resumida do porquê se concebeu, como se executou o trabalho e quais os resultados mais importantes que foram observados. A seguir, com base nestes resultados, quais as conclusões que se podem derivar e quais as implicações destas conclusões no estado atual do conhecimento na área. Vejamos um exemplo de um resumo estruturado (Figura 1):



Figura 1: exemplo de Título e resumo de um artigo científico (baseado em um artigo do autor para a Revista da

Associação Médica Brasileira, no prelo).


2.3) Introdução:

O papel da introdução de um artigo é situar um leitor genérico no tema que será abordado pelo artigo. Precisamos, na introdução, falar não para um super especialista, mas para um leitor que talvez desconheça as minúcias do tema ao qual se refere o artigo. Muitos leitores, por exemplo, se aproximam de um artigo para verificar algum aspecto metodológico do mesmo que potencialmente lhes será útil para um trabalho que eles mesmos conduzirão em outra área completamente diferente da medicina. Por exemplo, um pediatra pode querer ver como um questionário de depressão foi aplicado em um grupo de pacientes com câncer de mama para tentar aplicá-lo em mães de crianças de baixo peso internadas em uma UTI neonatal.


Desta forma, uma introdução deveria começar com um ou dois parágrafos que descrevam generalidades do tema mais amplo (contexto) ao qual os dados do artigo vão se referir. Nesta parte inicial da introdução devemos ter o cuidado de ir sempre de assuntos mais gerais para os mais específicos. A seguir, devemos ter uma descrição da importância do tema do artigo a ser abordado assim como alguns dados de outros trabalhos da literatura que mais se identifiquem com o artigo em questão que justifiquem o porquê se decidiu empreender o estudo em questão. Por fim os objetivos do estudo a ser descrito devem ser mencionados (Figura 2).




Figura 2: Exemplo de introdução de um artigo científico. Sublinhada está a parte referente ao contexto no qual o artigo se insere, em itálico as considerações sobre a importância do tema do artigo e citação de artigos importantes da literatura que mais se assemelham ao que se vai descrever e, por fim, em negrito, os objetivos do referido estudo (baseado no artigo do autor publicado no Sao Paulo Med J. 2005 Sep 1;123(5):219-22).


2.4) Metodologia:

A metodologia de um artigo deve conter todas as informações necessárias para que um outro pesquisador possa reproduzir inteiramente este mesmo trabalho. Devemos descrever em trabalhos clínicos, por exemplo, quais foram os critérios de inclusão e exclusão dos pacientes envolvidos no estudo. Em trabalhos nos quais se testam alternativas terapêuticas, devemos mencionar quais foram as drogas administradas, além de se especificar detalhadamente também em quais doses e periodicidade as mesmas foram administradas. Devemos citar claramente como foram feitas as medidas de eficácia da intervenção proposta, isto é, como medimos os efeitos do tratamento descrito no trabalho. Os métodos estatísticos empregados para se comparar grupos tratados de forma diferente ou efeitos diversos do tratamento devem ser discriminados claramente também. Muitas vezes, um dado método já foi descrito antes em um outro trabalho que esteja acessível ao público e que pode ser, portanto, citado no artigo para que o leitor o tome como referência para aquela parte da metodologia e, assim, se evita a repetição desnecessária de informações que já constam na literatura médica.


Em trabalhos de áreas básicas ou de outras áreas da medicina, vale sempre a mesma regra: incluir as informações que sejam necessárias e suficientes para uma eventual reprodução do estudo por outros pesquisadores. Esta preocupação com a possibilidade de reprodução dos achados por outros pesquisadores decorre do princípio de que a reprodutibilidade dos achados de um estudo é essencial para confirmar os achados descritos em um trabalho e, desta forma, aumentar a sua confiabilidade e aceitação pela comunidade científica. A leitura cuidadosa da metodologia de um estudo também pode nos oferecer pistas para interpretar eventuais diferenças entre resultados obtidos em estudos que versaram sobre um mesmo tema, por exemplo, ao evidenciarmos que os dois trabalhos avaliaram populações de pacientes de idades diversas ou se houve variação nas doses das medicações usadas entre eles.


2.5) Resultados:

A exposição dos resultados deve ser clara e objetiva. Utilizando-nos de tabelas, figuras e gráficos devemos nesta sessão ilustrar também para o leitor claramente os resultados obtidos. No texto desta sessão devem ser descritos por extenso os resultados mais importantes, devemos ter uma menção sumária dos resultados menos importantes e um direcionamento do leitor para tabelas, figuras e gráficos pertinentes que permitam-no melhor visualizar um dado resultado mencionado no texto. A escolha de quais tipos de gráfico e figuras usar assim como criar tabelas são tópicos fogem ao objetivo deste capítulo.




2.6) Discussão.

Esta é a última e mais difícil sessão de um trabalho. Esquematicamente, devemos começar usualmente por frisar no primeiro parágrafo os achados mais importantes do estudo. Nos parágrafos seguintes devemos colocar estes achados em perspectiva com os já descritos e publicados na literatura por outros investigadores. Ao contrapor nossos resultados com os já presentes na literatura, devemos procurar entender o porquê de eventuais diferenças dos nosso resultados em relação aos dos demais autores, por exemplo, será que utilizamos populações de pacientes diferentes?; utilizamos doses ou tipo de medicações diferentes?; Utilizamos outra maneira para medir os resultados experimentais?. Também devemos ressaltar quando há semelhança entre os resultados que encontramos e aqueles já reportados por outros autores, pois esta identidade pode reforçar a credibilidade de nossos achados.


Neste momento da discussão, se possível, caberia também um parágrafo sobre as limitações do estudo em questão no qual os autores mesmo criticam seu trabalho nos seus aspectos metodológicos e quanto aos resultados obtidos como se este trabalho fosse de um outro grupo de investigadores e lhes fosse submetido para revisão crítica. Discorrer sobre as limitações de seu próprio estudo denota, a meu ver, maturidade científica e antecipa críticas dos revisores e já pode inclusive revelar respostas a estas críticas. A seguir, em um próximo parágrafo, os autores podem especular sobre a aplicabilidade prática atual ou futura de seus resultados, assim como propor eventuais explicações para achados inusitados ou conflitantes de seu trabalho. Finalmente, no último parágrafo, devemos enunciar as conclusões do trabalho sempre baseadas nos resultados apresentados.


O Aluno interessado encontrará mais informações acerca de como artigos ceintíficos devem ser escritos na página do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas no endereço eletrônico: http://www.icmje.org/.




CAPÍTULO 7: TIPOS DE ARTIGOS E COMO ACHAR NA LITERATURA OS ARTIGOS QUE

NOS INTERESSAM.


“A falta de treino pessoal sistemático nos métodos do reconhecimento da doença leva a má aplicação de remédios, a longo tratamentos quando o tratamento é inútil e, assim, diretamente à desconfiança em nossos métodos que pode nos colocar, aos olhos do público, no mesmo nível dos empíricos e charlatões” (Aequanimitas; "Chauvinism in medicine”).


Agora que você entendeu a estrutura de um artigo científico e a sua importância como veículo de disseminação de novos conhecimentos na área médica, precisamos conhecer quais os tipos de artigos científicos presentes nas revistas médicas, como achá-los quando precisamos deles para resolver nossas dúvidas e como analisá-los para saber se de fato um dado artigo pode ou não ser usado para resolver essas dúvidas.


Os artigos podem ser genericamente divididos em: 1) artigos originais, como o que descrevi na carta anterior e que, como vimos, de forma estruturada, nos apresentam dados novos e 2) artigos de revisão que compilam informações de outros artigos de forma a nos passar uma visão panorâmica sobre um dado assunto.


Os artigos de revisão, por sua vez, podem ser do tipo sistemático ou não. Revisões sistemáticas seguem um protocolo de busca e análise dos artigos originais que serão nelas citados. No caso de meta-análises, os dados extraídos destes artigos originais (selecionados para compor a revisão sistemática) recebem um tratamento matemático específico que permite agrupá-los como se estivéssemos diante de um artigo maior composto pela agregação da casuística de cada um dos vários artigos selecionados. A revisão não sistemática, por sua vez, consiste em apenas selecionar os artigos que o(s) autor(es) reputam ser mais importantes e comentá-los da forma que este(s) julgar(em) ser mais didática, sem se pautar por um rigor sistemático de escolha e análise dos artigos que serão citados.


Há ainda artigos em revistas científicas que apresentam posicionamentos de expertos em dados assuntos e aparecem na forma de comentários ou editoriais. Podemos também encontrar cartas nas quais são formuladas perguntas ou críticas de leitores a artigos que apareceram em números anteriores da revista e que são respondidas pelos autores destes artigos.


Casos interessantes podem ser descritos como relatos de casos e, nestas situações os autores relatam um ou mais casos interessantes que ilustram uma situação clínica inusitada, uma técnica ou aspecto de diagnóstico interessante ou ainda um tipo de tratamento ou efeito adverso não usual.


12) Como procurar artigos na literatura médica para resolver suas dúvidas?

Inicialmente devemos formular claramente nossa pergunta. Na medicina assistencial, ou seja, no cuidado de pacientes nossas perguntas geralmente são acerca da causa (etiologia) de uma dada doença, seu diagnóstico (quais os melhores testes para diagnóstico desta doença e quais suas limitações), seu prognóstico (como irá evoluir um dado paciente portador de uma dada doença se ele também tem ou não certas características clínicas ou laboratoriais?) e sobre seu tratamento (qual é o melhor tratamento para uma dada doença?; Este tratamento já foi comparado com outros tratamentos?).


Uma estratégia é procurar inicialmente um artigo de revisão mais amplo sobre uma dada doença ou sobre um destes aspectos da doença (etiologia, diagnóstico, prognóstico ou tratamento). Neste artigo mais geral poderemos encontrar referências bibliográficas que nos interessem e buscá-las posteriormente.


Uma estratégia talvez mais prática é buscar um artigo que mais se adapte a responder nossas dúvidas no maior banco de dados gratuito de artigos científicos na área médica, o PUBMED (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi) da National Library of Medicine dos EUA. A seguir neste mesmo banco de dados buscamos os artigos que mais se relacionam a este que acabamos de selecionar. A figura 1 ilustra uma busca de um artigo acerca do valor do marcador tumoral CA19-9 para o diagnóstico do câncer de pâncreas. Para tal busca vamos utilizar a interface do PUBMED denominada “Clinical Queries” (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query/static/clinical.shtml) que divide as buscas nos aspectos antes mencionados (etiologia, diagnóstico, prognóstico ou tratamento). Ao procedermos desta forma, obteremos o seguinte resultado (Figura 2). Escolhemos, então, desta tela (ou de uma das próximas telas) um artigo que mais nos pareça ser adequado para resolver nossa dúvida (no caso o artigo de número 3 da tela demonstrada na Figura 2), ao clicarmos em “related articles”, veremos uma série de outros artigos muito mais próximos do que procuramos (Figura 3). Esta é a estratégia que mais uso para resolver minhas dúvidas do dia a dia.


Se você se interessar mais pelas estratégias de como achar artigos científicos de interesse no PUBMED, você poderá perguntar à bibliotecária de sua Faculdade ou ainda achar informações úteis e um tutorial online na própria página do PUBMED.


3) Como um artigo entra no PUBMED?

Artigos científicos que sejam de boa qualidade (veja próxima capítulo) podem ser submetidos pelos seus autores para revistas científicas cujo conteúdo é indexado no PUBMED graças à sua alta qualidade.


Alguns dos parâmetros que definem a alta qualidade de uma revista médica indexada no PUBMED é a sua consistência, ou seja, estar publicando artigos de boa qualidade consistentemente há vários anos. Os artigos submetidos são julgados por revisores nomeados pelos editores que – sem que os autores do artigo saibam quem eles são - avaliam a sua qualidade metodológica e formal e fazem recomendações para sua melhoria prévia à publicação ou mesmo podem rejeitá-los. Desta forma, assegura-se a qualidade do material que é indexado e, por conseguinte, factível de ser achado no PUBMED. Se os artigos selecionados para uma dada revista forem muito relevantes, eles serão repetidamente citados por autores de outros trabalhos científicos. O número de citações dos artigos dividido pelo número de artigos publicados pela revista define o seu índice de impacto que é um parâmetro da importância desta revista. Revistas indexadas com alto índice de impacto são geralmente as revistas mais rigorosas, seletivas e, portanto, importantes.


LEGENDAS:

Figura 1 ilustra uma busca de um artigo acerca do valor do marcador tumoral CA19-9 para o diagnóstico do

câncer de pâncreas utilizando-se a interface do PUBMED denominada “Clinical Queries”

Figura 2: resultado da pesquisa ilustrada da Figura 1. Escolhemos, então, desta tela (ou de uma das próximas telas) um artigo que mais nos pareça ser adequado para resolver nossa dúvida (no caso o artigo de número 3

desta tela.

Figura 3: após selecionarmos o trabalho que mais nos interessa, por exemplo, o terceiro trabalho que aparece na tela ilustrada na Figura 2, clicamos em “ related articles” e obtemos mais trabalhos similares a este que se

adequam às nossas necessidades.

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